ressurreição
Temudo morreu com pavor de alturas. Do alto do prédio por mais do que uma vez se tinha entalado entre pensamentos cruzados, persistentes, a percutirem-lhe os bombos da paranóia. Saltar, porque não? Apenas mais um passo, um pézinho no algeroz ferrugento, deixar que o destino se apoderasse dos imponderáveis contidos na orientação do vento ou na resistência dos materiais. Uma torrente de indecisões intermináveis a dançarem-lhe testa adentro. E era nesses momentos que o desejo o atormentava com mais força, os músculos das pernas se contraíam involuntariamente como se se ajeitassem para o salto que havia de vir, um estado febril o atormentava com o coração a trote, o cigarro aguçado como um lápis a lacerar-lhe as peles dos lábios. Depois corria para dentro de casa, trancava a porta da varanda e esperava que o dessasosego se diluísse.
Da última e majestática vez, nada disso o acossou. O passo enérgico conduziu-o da varanda ao chão, num salto firme e resoluto, como se de um mergulho olímpico se tratasse, executado na perfeição, rojado o seu nome em direcção à lápide.
Hoje, o corpo desfigurado e anguloso de Temudo repousa dentro de um caixão paupérrimo, como o defunto ordenou, ladeado por círios ardentes e liláses. Apenas os mais próximos apareceram. As duas filhas correm no pátio, e furtivas esgueiram-se até ao féretro para levantar as pálpebras do pai, no meio daquele bolo de carne e sebo que outrora tinha sido um rosto, não menos carnal e seboso. Agripina executa o luto pelo canal gástrico, atacado por gorgolejos ácidos. Outros conhecidos de Temudo, que a amizade vendeu-a demasiado cara ao longo da vida, conversam animadamente do lado de fora da capela, relembrando a morte prevista de Temudo e a confrontam com a morte real e esforçada de Roberto. A morte onírica do tubo exaustor enfiado na goela que nunca se chegou a cumprir. A morte viscosa do emputrecimento orgânico que nunca veio.
O cura aproxima-se do púlpito – exigência última não escrita de Temudo, subproduto da inapelável contradição entre a culpa cristã e a descrença na vida ulterior, diminuição absoluta dessa entidade imperscrutável que ajunta todos os ateus cristãos, o pior de dois mundos, como Temudo lhes chamava - e bolça as litanias. Agripina enraivece-se ao ver o cortejo de beatas a tirar os dividendos à morte, com cestinhos de vime mas em cinco segundos esquece-se da raiva e cospe para dentro, enjoada pelas recentes irupções caóticas na vida de formulário. As miúdas riem-se, a atrasada com mais força, não se sabe muito bem de quê, mas Temudo no caso de ainda ser vivo, asseguraria que de si mesmo, mais estropiado por dentro do que por fora. O padre delicia-se com o prolongamento do sofrimento perpetrado pela leitura do nome completo do defunto, como ali estivesse o epónimo de uma nova idade do terror e da vileza. Os veios do nariz expandem-se, os olhos injectam-se de bílis e as mãos iracundas tremem-se-lhe enquanto reverbera. Mas quando começa a dizer o nome, algo se apossa dele, e o nome não sai, e as letras dançam e voam por cima da cabeça do auditório fúnebre, descendo em voo picado e rasgando carnes com as arestas. Agripina defende-se, mas um erre traça-lhe um lenho no nariz, depois segue-se um “i” que rasa os fígados da pequena diminuída. E é então que o nome todo se dispersa no alto. Temudo ri-se e goza a alegria post-mortem, no caso de estar vivo.
Fim
“ Do nada erguer-se-á a luz, um dia. Um dia solvente e prenhe de tépida calmaria. Até lá, lamento deixar-te as trevas, este mundo átono e insolvente.
Talvez seja isto a que chamam de parricídio. Tecnicamente estimo que seja uma imprecisão pois seria impreciso excluir-te do rol de responsáveis, mas as nossas filhas acima de tudo falharam no acto derradeiro de se erguerem receptáculo de uma transferência emocional qualquer que me permitisse viver. Por isso, deves deixar bem explícito no teu depoimento que crês ter sido um parricídio. É o último favor que me fazes. Já que não fui eu capaz de o cometer, que seja então cometido contra mim.
Dentro de minutos, ou há uns minutos, dependendo do tempo escolhido, o meu ou o teu, lançar-me-ei da varanda. Venho pensando nisto há algum tempo e afligia-me, e ainda aflige, o possível arrependimento naqueles breves milésimos de segundo que separam o salto no vazio do esfacelamento na calçada. É, no entanto, uma boa forma de me entreter até lá. E sempre experimento uma sensação nova durante os últimos segundos de vida. Falta-me ainda saber se serei capaz de os contemplar depois do embate. Como vês, nem numa morte premeditada e estudada encontro refúgio para as dúvidas. Assim seja, e morrerei com elas.
P.S. Por favor, não te esqueças, como previamente acordámos, de providenciar um fogo fortuito (e, vá lá, fátuo) por entre os meus papéis e recusa terminantemente qualquer edição póstuma de material inédito. Ainda que não estipulado, deixo-te, integral e exclusivamente, a culpa.
9 de Maio de 2011
R.T.”
Mundos maravilhosos
“Mundos maravilhosos”, assim rezava, certa noite, uma pequena inscrição na haste do berço da filha menos desenvolta de Temudo. Chorava copiosamente, atordoada pelas cólicas, um choro que se engolfava em inspirações frenéticas. A mulher dormia o sono dos justos, carburado a barbitúricos, de forma que Roberto Temudo sobrava como único molestável da casa. Quando se acercou do berço trazia na mão um pano enxaguado, crente de que eram mais uma vez as febres quem provocava o brado irado da filha. Era só mais um erro de avaliação a somar a tantos outros, obra de uma cabeça pertinaz, a mesma cabeça que julgou ver no retardamento da filha uma décalage normal dentro escala da evolução pueril. Passou-o distraído pela testa pouco ágil da filha, na esperança de que o choro abrandasse e o deixasse finalmente dormir. E então leu a inscrição, releu-a, voltou a lê-la e o choro foi se sumindo lá longe, até desaparecer. “Mundos maravilhosos”, duas palavras estranhas, nunca acopláveis, derrogavam o pendor natural das pálpebras. Temudo não pensava muito em mundos maravilhosos, limitava-se ao seu próprio mundo fértil em episódios pouco magnificentes, aborrecidos. O mundo maravilhoso de Roberto Temudo encontrava-se distante. Era um mundo apartado da civilização, no interior, um mundo infantil onde se refugiava de quando em quando. Mas, e Temudo por vezes outorgava-se a si mesmo o título de beneficente da sorte quando medido o seu mundo com a régua das gentes comuns, era um mundo existente. Num tempo diferente, é certo, mas vivido, real. A este acesso de optimismo contrapunha interiormente que todos os mundos maravilhosos existiriam sempre, para trás ou para a frente, nunca no tempo presente, e que o seu mundo só diferia do de metade da humanidade que projectava os seus mundos no futuro. Sobrava a outra metade que fazia de Temudo um ser tão excepcional quanto o podem ser todos os seres que se ajeitam no leito de uma das metades da humanidade. Perguntava-se se não haveria ainda uma porção sonhadora de bípedes que augassem por um mundo fora do tempo ou que simplesmente fossem incapazes de conceber mundos maravilhosos, e logo lhe adocicava os lábios o sabor do privilégio.
O mundo maravilhoso de Roberto Temudo ficava lá atrás, enfim, ele próprio o admitia, um mundo nostálgico, tão irreal como os mundos nunca sonhados ou fora do tempo. Ficava no interior agastado do país, numa casa dividida a meio por um alpendre cimentado. Um mundo guindado à beleza mais primacial durante a noite, perdido entre montes que ao fim da tarde se começavam a debruar de púrpura e laranja. A filha no berço esperneia, tem agora os beicinhos roxos, a cara roxa, e chora mas Temudo já se perdeu. O seu mundo sonhado ou lembrado, como lhe mais aprouver, está cheio de movimento, e recorda-se que aquela casa é a casa dos avós onde junto ao escano lhe juraram que o tinham salvado de ver a língua ser comida por um rato. Em frente ao alpendre vê o pelourinho onde se empoleirou com uma caçadeira de chumbos para depois lhe jurarem que abatera a cauda de um rafeiro, o seu primeiro recontro com a culpa. Nesse fim de mundo, lembra-se de passear de noite, desafiando o medo, vendo o seu pequeno corpo de miúdo a desaparecer, primeiro a mão, depois os braços, o corpo inteiro até o próximo passo se tornar no mais absoluto gesto irracional, recorda o zunir agudo dos grilos a aumentar na razão inversa da claridade, um zunido ácido a chegar das trevas, a insidiar o medo pelo corpo menino. É esse o seu mundo maravilhoso. O pensamento vai sendo entrecortado pela respiração ofegante da menina para por fim ser resgatado da letargia. Vê então a cabecinha azulada da filha surgir mais claramente. Dividido entre a emergência e a nostalgia, acorda por fim Agripina para levarem a filha em sofrimento às urgências. Lá, uma equipa de médicos e enfermeiras retira um pequeno pedaço de madeira alojado na traqueia da inepta. Ao voltar a casa, Temudo procura a placa com a inscrição. Em vão. Roberto Temudo está seguro de que a filha engoliu o seu mundo maravilhoso.
A tristeza apodera-se dele. O mundo maravilhoso é um mundo rouco com cheiro a morto. Já não se lembra dos familiares que estão vivos e dos que morreram, confundem-se, e dá por si a falar de almas penadas como se de vivos se tratasse. A rouquidão é uma rouquidão arrastada, congénita, não é fruto de desespero nem de desgaste. É assim, nasceu assim, já tolhida. Mas o fedor a morto é pestilento e pressente-o em todos os regressos, é o cheiro a folar e estrume, a Cristo e à lameira, um odor que se espalha por todos os ermos da aldeia. O silêncio engole a aldeia enquanto Temudo se move proceloso para resgatar à morte o seu mundo sonhado. Os avós estão mortos, os tios estão mortos, já não conhece ninguém. Mas os vivos estão eles mesmos mortos, toda a aldeia está morta. Como morta poderia estar a filha se ele tivesse continuado a pensar no seu mundo morto. Temudo sabe que é aquele um mundo sem regresso, dali só se parte, para a cova ou para Marselha, ninguém regressa. Só os mortos permanecem e sorriem escarninhos da sua esperança vã e do seu maravilhoso mundo morto. Roberto Temudo sabe que o regresso é morte, morte da memória e que o seu mundo maravilhoso morreu no passado, ainda que dentro do tempo, dum tempo morto.
Termidor – Tomo II
Quotidianamente, pelas oito da manhã, Roberto Temudo abre a caixa do correio e verifica a correspondência. Em abono da verdade, não é o conteúdo das cartas, poucas, que recebe que o impelem mas sim a ânsia de se certificar de que nenhuma delas é endossada para o indivíduo de ascendência inteira que lhe percorre as veias. Tem de seu nome completo Roberto Luís Temudo Pardal Santos Silva mas no momento da assinatura e para qualquer acto de identificação recorre unicamente, e antes mesmo de ter tempo para pensar, à onomástica matrilinear (e daqui se exclui o Luís, da autoria do pai). Fá-lo desde há anos, desde a maioridade, e a prática calcificou-se. Porém, há instituições e organismos que no seu zelo identitário lhe recordam a impossibilidade da gestação solitária, a perenidade genética e todas essas coisas de que Roberto Temudo gostaria de se descartar. Gosta de pensar que assim se sente mais próximo da metade sul do continente de Vespúcio, de certa forma adocica-lhe os meandros da consciência, fá-lo olvidar (e de como ele gosta de recorrer ao olvido, ao seu significado e significante, musical, tão mais latino-americano) das tardias epifanias paternas. Como dizíamos, em toda e cada uma das manhãs, antes ainda de tomar o pequeno-almoço e de lavar os dentes, Roberto Temudo levanta-se da cama e veste o roupão para se assegurar de que o lastro do pai é administrativamente extirpado do seu nome. Não é este o único motivo que o achaca. “Roberto Temudo” soa bem a Roberto Temudo, abre-se primeiro para logo depois se fechar, sobe e desce, a simetria compensa a assimetria familiar, como se obliterar a parte paternal parisse uma nova simetria una. E há, ademais, um motivo de natureza prática. Das poucas vezes em que, por obrigação alheia, se viu forçado a escrever “Roberto Luís Temudo Pardal Santos Silva”, logo começou a ressumar, ourado, com as mãos a fugirem-lhe do corpo, duplicando-se, decuplicando-se, os pensamentos a encavalitarem-se uns nos outros até por fim cair redondo no chão. Sintoma recidivo que o fez consultar um médico. Este, de quem desconfiou por usar uma fita da Nossa Senhora do Bonfim e por quem desenvolveu uma estranha empatia de reminiscência sul-americana, ouviu incrédulo a história, como se um nome pudesse ter menos potencial místico que um pedacinho de pano atirado ao mar. No fim, arrumou com o assunto em duas penadas e receitou um anti-psicótico que Roberto Temudo nunca chegou a tomar. Nos seus tortuosos fins de tarde, Roberto Temudo continua a ouvir uma voz que lhe diz para procurar a cura no nome, no seu nome, completo e inteiro, pai, mãe e espírito insano.
Roberto Temudo sonha como poucos e também os seus sonhos apontam para sul. Vive no constante tormento de a imaginação se esgotar enquanto dorme. Acorda e apenas o seu nome ressoa por entre o vazio que é a imaginação diurna, furioso pela inépcia em amortizar os proventos da nocturna fúria criativa. As cartas seguem-se a noites de terror sonhadoras em que todos os membros de Roberto Temudo são fustigados pelas cãibras. Os sonhos apenas completam e dão seguimento aos fins de tarde encrespados. Desde há muitos anos um sonho se repete. Nele vê um enorme enguiço com rodas dentadas, calafetagens, rebites, cordas e panos montado dentro de uma casa antiga com escadas em caracol. Ele aguarda sereno lá dentro e vê a sua mãe assomar à entrada. Esconde-se e nada lhe diz. Ela prossegue até que ele acciona um mecanismo que deixa cair um manto transparente (ou Roberto Temudo assim o acha, na medida em que vê a mãe mesmo depois do manto cair) sobre a sua pobre mãe. Esta debate-se com o manto que a sufoca. Roberto Temudo ri-se, e ri-se até se engasgar com o próprio riso, da sorte da velha. O riso pára quando percebe que mesmo sem ar a mãe continua a falar. Aproxima-se dela e retrai-se estarrecido. A mãe não pede socorro, não clama por desculpa. E é então que a maldita e encoberta culpa o invade e lhe tira o ar. Enquanto os dois asfixiam, olha para o rosto da mãe onde não há raiva, nem ressentimento, nem culpa. Ela debate-se leniente com o dióxido de carbono para lhe poder soletrar intermitentemente o nome: Roberto Luís Temudo Pardal Santos Silva cortado às postas. A voz aparece então, desta feita sem saber se no sonho se já acordado, e grita-lhe para procurar no nome. Depois, Roberto Temudo acorda e vomita, antes de ir inspeccionar o correio.
Termidor
Roberto Temudo não se lembra de quando preencheu o primeiro formulário, tampouco se lembra da última frase que o pai lhe disse, antes de fugir com um torneiro mecânico e com o exemplar de um livro latino-americano. Lembra-se, e lembra-se moderadamente bem, do último sorriso da mãe, que coincidiu, moderadamente bem, com a catarse proletária e maricas do pai. Neste momento tenta lembrar-se das mudanças que se produziram nos formulários: terão sido poucas com excepção da unidade monetária. Uma vintena de anos a querer-se saber exactamente a mesma coisa da mesmíssima pessoa. Roberto Temudo não seguiu as pisadas do pai, literal ou metaforicamente. Nunca mais o viu e vive com uma mulher que conheceu através do formulário, prova acabada de que nada mudou em vinte anos de formulários, fora a situação conjugal. Nada pelo ano da graça de 1977, longe do seu longínquo ano de sessenta e dois, enxaguada na pia baptismal com o nome de Maria Agripina. Mulher feita e feia quando a conheceu, caduca e feia por agora, informação negligenciada pelo formulário, mãe das suas duas filhas, filhas normais mas embrutecidas, porquanto dentro da média, desconfia até que uma delas tem um pequeno atraso apesar de nunca ter tido coragem de o confessar a Maria Agripina, pois suspeita que ela não seria capaz de reconhecer a sua responsabilidade genética e ele ver-se-ia forçado a demonstrar cientificamente a suave imbecilidade que perpassa o rosto da mulher a todo o instante, e isso certamente abalaria a união quase pátria que os mantém juntos há tantos anos. Roberto Temudo lembra-se do dia em que a conheceu, ou melhor, lembra-se do formulário dela, a imagem dela há quinze anos atrás chega-lhe à memória como um rejuvenescimento feito a computador, preservando acima de tudo a fealdade, comprometido com a verdade mas ainda assim não mais do que uma aproximação. Lembra-se sim da primeira vez em que fizeram amor mas porque nesse caso dispensa-se a obrigação de reajustamento cronológico, a primeira vez foi anódina e às escuras, como às escuras e anódina foi a concepção das duas filhas, e igualmente foi anodinamente e às escuras que no mês anterior se ajeitou por detrás dela e fez o que tinha a fazer. De resto, não estaríamos muito longe da verdade se disséssemos que o seu historial sexual segue compassado com a sua vida anódina e às escuras. Trinta anos a preencher formulários sem ver caras, muito menos corações, o despertador a tinir às oito menos um quarto, os prolegómenos normais do dia-a-dia, formulários, diária a quatro euros, formulários, regresso a casa e as noites encafuado no escritório. Suporta a relação com a mulher e os gritos das duas miúdas à volta da casa da mesma forma que preenche o formulário e com o mesmo entusiasmo com que ejacula para dentro de Maria Agripina. Decorrem estas obrigações da sua fidelidade à vida. Nunca a pretendeu transcender, limita-se a tratá-la da melhor forma que sabe, com a regularidade e simplicidade que restam a um homem honesto e aprumado. Sabe que as transcendências e sublimações da vida só podem arrastar consigo o inferno e tem na sua entrevada mãe a prova provada disso mesmo.
Roberto Temudo pensa nestas coisas, à noite, sentado militarmente diante da secretária. Todos os dias, a partir das sete da tarde fecha-se no seu escritório e renega as suas responsabilidades maritais e paternais. E é então que lhe surgem aqueles demónios conspícuos que ameaçam a solidez da sua existência terrena, de repente, transidos como loucos, dançam e devastam a mansidão da sua consciência, vêm sob a pele de furiosas bestas a augar por sangue ou na imagem de complexos industriais de trucidação colectiva, munidos de rodas dentadas com lâminas nas pontas. Ele sua e agita-se, sem sair da cadeira, e uma força percute-lhe cansaço por todas as arestas do corpo, emdemoninhado pelos espectros. Os espectros relembram Roberto Temudo do seu desígnio último e secreto: escrever o maior romance latino-americano do século. Resmas e resmas de folhas rabiscadas acumulam-se em cima da secretária, ainda que nem uma faça parte da obra, são apenas vivificações de notícias recolhidas de diários sul-americanos. Roberto Temudo nunca foi às putas nem bebeu Mezcal, Roberto Temudo apenas fodeu institucionalmente a sua mulher, nunca conheceu os deserdados do mundo, a não ser por formulário, Roberto Temudo nunca viu cavalos a erguerem-se no ar nem lianas a falar, Roberto Temudo tem duas filhas, metade delas inimputável e nunca saiu de Portugal. Roberto Temudo não se lembra da última frase que o pai lhe disse mas, ocasionalmente, avista gélido e fixo na memória o olhar libidinoso do operário que andou a enrabar o pai pelo mundo fora.
Roberto Temudo tem a cabeça vazia e cheia de ideias que lhe ferem os olhos, e os ouvidos, e a garganta, e o escroto, e sente também o esfíncter dorido de tanto aperto não-proletário. Roberto Temudo escreveu mais de mil vezes “ E veio o dia em que Augusto Rodríguez regurgitou Puerto Montt”. A Roberto Temudo não é o quotidiano que o mata. Porá um fim ao seu termidor regular e anodinamente engasgado com o formicida das letras.
embarque
Ele encosta a testa contra a testa dela. Sabe que a partir da linha os dedos já não se tocarão. Um longo fio de ar erguer-se-á para lhes recordar a distância. Olham em volta e sentem os passos cruzados e apressados dos viajantes que os surdam. Um movimento desesperado que lhes electriza os sentidos, conjugado com a voz que diligentemente canta um arrazoado de informações “ Gates, Departures and Chegadas, Segundo Piso, Embarque”, o ponto ao sinal da campainha ordena o nexo das frases. E a testa dele franze-se, gotículas de suor ameaçam descer-lhe até ao nariz, ao ver o olhar circunscrever a cabeça dela para se afunilar contra a linha, a última linha. Apertam-se, um contra o outro, e as lágrimas cavalgam as faces dela, já tisnadas da emoção contida. Ele dá por si a irritar-se, o desconforto varre-lhe o corpo, afinal de contas são só uns meses. Mas ela aperta-lhe a mão com força, como que para dar recorte físico à dor. Como se lhe exigisse que a dor dele não fosse inferior à dela, regra primeira do gostar, a cravar o mandamento do equilíbrio na pele. Nada de artimanhas para rutilar a dor, é dever burocrático suportá-la de frente. Como um homem. E ele inspira pelo diafragma para se enrobustecer antes de novo choque. Sente a humidade passar pelas pestanas, e já não sabe dizer se provêm da testa ou doutras pestanas mesmo defronte. E então ela afasta-se de forma que ele lhe veja o rosto e traça o sorriso, que se alteia impertinente, uma contracurva trémula que lhe pede clemência. As mãos magras seguram a cara dela, prendem-na para poder gravar um retrato eterno, um retrato a que pudesse regressar quando a dor voltasse. As lágrimas secaram mas um golpe seco contra peito recorda-lhe a linha que se mantêm queda à espera de ser trespassada. No exacto momento em que ela atravessar a linha, ele sabe-o, da porta sem fundo verá acercarem-se hordas de cancros, aneurismas, pestes, epidemias, cataclismos, terramotos, ondas gigantes, pragas, acidentes, estropiados, a danação, mares revoltos de sofrimento, a velha inclemente e fiel, por fim. Ela sussurra-lhe “Adeus”. Quere-o. Ele já deixou de querer. Já só espera abandonado o terror por detrás da linha de embarque.
o bairro
“Está frio, foda-se” – a cabeça furta-se-me à quentura dos lençóis. A esta hora já se desalinharam, soltos do fundo da cama. Aninho-me entre eles, prendo-os com os pés. Em abono da verdade, é um manifesto exagero. Não é o frio de lá de cima, aqueloutro que um homem deita os bofes pela boca e vê uma nuvem quente a perfilar-se à sua frente. Uma nuvem fétida, tão fétida como este bocadinho esconso da cama em que se eleva a temperatura à custa da salubridade, que é um quente cheio de baba ressequida, de cera, de pêlos e cabelos soltos, nossos e doutrem que já se alçou da cama há um bom para de horas. O despertar está tão próximo que ao calor geral se contrasta uma pasta fria de baba que ainda não secou e se insidia nos ouvidos. E o calor alheio que já fugiu da cama. Mas as meninges queimam, já passou da hora. Iço o torço de repente, fazendo frente ao frio agreste. Uma tontura inala-se num repente e fraquejo. “Força, é só o repente”. Perfilo-me ao pé da cama, já não sei se é o frio se é o medo das escolhas que se impõe mal um homem se liberta da modorra horizontal. Pouco importa. Enche-se a taça com cereais, coisa rápida só para cortar as tonturas e para forrar o estômago. Um arrepio percorre-me o corpo, provindo do saguão. Mania de deixar a janela aberta, não se vá dar o caso de acabar morto surpreso pelo monóxido de carbono. É um saguão fundo, sete ou oito metros de profundidade, caminho para o vento que zurze a casa. Defronte da minha janela, a da Dona Celeste: não se vê vivalma. Graças a Deus! Sem café torna-se difícil. E já agora, é de ver se os bicos estão bem fechados. Tudo enquanto me passeio com a taça em riste, sorvendo umas colheradas rápidas, à medida que me impaciento. Falta o café. Na cozinha, fechada a janela, os bicos, a botija, o cinzeiro. Inventariados que estão na lista da segurança, autorizo-me a passar para o duche. Mas falta o café, raios. Ou a cafeteira ou a leitaria. “O de máquina é mais forte”, arranca-me mais definitivamente ao torpor. É só o tempo de enfiar umas calças e uma camisola por cima do pijama de flanela engelhado, calçar as botas e sair. E no entanto, lamento que ainda não esteja convencionado o trânsito em pijama. Seria tudo tão mais fácil, e escusava-me a esta contrafacção pobre de o esconder por debaixo das roupas, se à prática não lhe acoplassem de imediato o selo da danação. Arrasto-me pelas escadas, e temo pela Dona Celeste, que a esta hora tão estranha para mim ainda se pode lembrar de me pedir um favorzinho. E sem o café, não há favorzinho nenhum, escapam-se-me as forças e as vontades. Sem o café quase falho um dos lanços, prontinho para me escarrapachar contra a porta, abrir a cabeça, dar cabo do cerebelo, vazar-se uma vista… uma lista longa que se assoma nas parietais e está ali ao alcance de um gesto falhado. Destravar a fechadura posta ao contrário e que só abre para a direita, escapulir-me aos pingos grossos que caem à porta, essa é a primeira tarefa. Depois fechá-la com doçura, à porta carcomida pelo caruncho e pela humidade que fecha melhor mas é com um empurrão vigoroso., e que ninguém até hoje cuidou de mandar arranjar, ”devagarinho, que é para a poupar, que ainda tem que durar uns anos, Deus nos acuda, que a vida hoje não está para gastos”. Saio, finalmente. À esquerda, da portinhola de vidro incrustada na porta, remira-me D. Perpétua. A cara rotunda e as fauces gordas, promessa eterna de bonomia, são imediatamente traçadas pelas arestas duras do cenho, e das rugas que lhe atravessam as bochechas. Tem o raio dos dentes impecáveis, a mulher, às tantas à custa do rilhar permanente. O olhar faz esquecer, implacável, qualquer pretensão bonacha daquela cara. Arranco-lhe a ferros o bom-dia. Vai-me seguir com olhar até dobrar a esquina e depois voltará à vigilância do sopé da porta, revolvendo-se de alegria por dentro, de cada vez que admoesta um incauto. “ Uma pessoa tem de fazer valer os seus direitos logo de início, sem contemplações” disse-me uma vez. Assertiva e bem-falante, ao contrário do que era de julgar. Ignoro o olhar dela e espreito para cima. O prédio rugoso que me dá dormida e se erige decadente. São todos iguais, por aqui, mudam as cores, entre a alvura morta e o amarelo icterício . Sobreviveram ao terramoto, quase de certeza. Ao lado, o outro prédio, ornado a vigas de suporte, roto no topo, em permanentes cuidados. Lá em cima, vê-se a última viga e imagino-a balouçar. Se não for a viga, há-de ser uma telha, alguma coisa há-de acertar na cabeça de alguém, um dia destes. E se não for telha, é um dos cabos suspensos por cima das escadinhas que acaba a chicotear o pescoço de um transeunte, a deixá-lo esticadinho. E sorrio ao ver a pedra bruta que suporta tanta gente por aqui. O clube a destoar, lá longe, muito quadrado e imaculado, branco, branco, com umas ameias a enfeitarem-no no cimo e as flâmulas impantes a comporem o ramalhete.
As escadinhas defronte da porta estreitam-se à medida que se desce e é para lá que vou. “Ai menino, que estou muito zangada consigo” oiço. A voz vem de cima. Espreito e lá está Dona Celeste com um sorriso miúdo. “Estou a brincar consigo, não ligue, já sabe como sou” e as mãozinhas espreitam da janela, mirradas e inchadas nos nós ao mesmo tempo. Agita-as, como quem diz “que parvoíce”. Fechadas, com os dedos tortos contra a palma da mão. “ Mas então vem à rua sem chapéu, com esta chuva. Se a menina sabe”. E ri-se, ri-se como se toda a tristeza da vida fosse extirpada por aquelas gargalhadas. “ Não faça caso, já sabe como sou, ora, uma velha maluca. Vá lá à sua vida”. Aceno-lhe com a mão envergonhado, um tanto ou quanto infantilmente. “Como está, Dona Celeste?” E é evidente que está bem, pergunta espúria tanto mais que a resposta há-de ser oposta. Está sempre uma desgraça. Não há dia em que o não esteja. Havia de ser diferente de todas as outras velhas, para mais entrevada e enlutada para todo sempre. Um poço de tristeza que irradia uma alegria adolescente. “Vá lá à sua vidinha”. Pressinto nas costas cravar-se o olhar desdenhoso e desconfiado da Dona Perpétua.
A descer as escadinhas, esbarro-me contra um mastro improvisado com um pano vermelho. Apoia-se num guarda-chuva e enterra-se pelo chão adentro. Sinaliza a falha de calçada provocada pela tromba de água da noite passada. As pedras cederam à força das águas e um buraco terroso pode agora quebrar uns ossos a um turista mais distraído. Ao lado, vêem-se as paredes descascadas de azulejo por salteadores da feira da ladra, que os vendem como souvenirs. Mais a gente que os compra para os diabo que os carregue.
Na leitaria, um barulho atordoante cega-me os sentidos. A dona da peixaria grita do outro lado da rua “ Prepara-me uma torrada e uma meia de leite que já aí vou”. Um indigente baixa-se até ao cesto do lixo de onde pega num pedaço de torrada que atira para as goelas. Emborca um macieira de um trago. Um espectáculo memorável. Ao contrário da mais ordinária das gentes, o proscrito envolve toda a borda do copo com os lábios e, num segundo, vira o copo de pernas para o ar, fazendo o líquido descer até lhe arranhar as tripas. Soluça. Uma mãe corre afoita atrás da filha, ralhando-lhe por não comer a comida. Uma mãe pressurosa mas ciosa, como todas as mães, no fim de contas. Até que um brado se faz ouvir “ Carolina, ou vens aqui ou dou-te um biqueiro na cona”. Espero o congelamento das gentes na leitaria mas nada. As conversas prosseguem, e a miúda acerca-se da mãe, respeitosa. Ao lado, um homem dos seus quarenta anos, seco de carnes, chupado até ao osso, de tez tisnada, conta uma história. “ E então os rapazes, lá da praxe ou que é aquela merda, chegam aí e metem-se com o moço”. “E tu não podias não te meter, caralho, cheirou-te logo” resmunga a mulher, sentada a seu lado. “Que querias que fizesse? Ele estava com a cachopa, e eles eram para aí duzentos” e volta a cabeça para o interlocutor “Os tipos estavam aí os berros e nós já os estávamos a catar, mas tudo tranquilo, ninguém estava numa de se chatear”, “ Pois não que não estava, viu-se”. “ Está calada, porra, e deixa-me contar a história!”, “ Não me mandes calar” , “Oh, caralho, já me estás a moer o juízo” e olha-a muito fixamente, até ela ceder e rodar a cara, como que assentindo “ Então os filhos da puta foram-se meter com ele. Pensavam que ele não era aqui do bairro. Nós éramos uma dúzia no máximo”. A miúda desata a chorar e eu deixo de seguir a história. “ Que vai ser? Não ligue que isto não costuma ser assim” – adverte-me a senhora da leitaria, no seu sorriso gordinho. “ Um café, se faz o favor”. Volto a ouvir o homem magro “Havias de os ver, ai se havias… Todos fanfarrões, depois até parecia que ganhavam lanço a descer por aí fora até ao castelo. Caralho, que aquilo é que era correr. Isto aqui, a malta do bairro é toda muito pacífica, mas metem-se com um de nós….a um deles, espetei-lhe um tento que lhe abri logo o nariz. Coitado…” E ria-se “Então não se vê que não querias nada andar ao bochecho? Raios ta partam que nunca mais cresces” resmunga a mulher. “Oh, Mulher, foda-se” e vendo que o outro continuava atento , continua a descrever mais pormenores. Eu rio-me para dentro, há uma justiça naquela contenda. Lembro-me da mole vestida de preto na noite anterior aos berros pelas escadinhas fora. Uma voz feminina, de uma das janelas, mandou-os calar ao que responderam “Oh velha, queres que te vá tirar o pus?” Sim, é de justiça que se fala. Ninguém se mete com o bairro. E dá-se-me uma vontade enorme de chegar perto do homem magro e dar-lhe um abraço mas contenho-me. Sim, justiça, divina ou não, falha de proporcionalidade, mas justiça, um filho-família, a estrebuchar de altivez, insuflado de fleuma pelas insígnias que ostenta na dragona, farto de humilhar os de baixo, a levar um prego certeiro de um tipo do bairro, seco mas duro. Pago e volto a casa. À entrada, já subidas as escadas do prédio, Dona Celeste pede-me para lhe abrir um frasco “ A chatice da doença”.
Volto a casa. O frio húmido da rua ainda se aloja entre os dedos dos pés, por dentro das meias. Já não há desculpa para me esquivar ao banho. Penso na sorte que tenho em o prédio em frente estar embargado. Resta alguma privacidade. Não muita porquanto a vida dos bifes ou boches de lá de cima, depende, se revezam a passear de tacões, a largar urros lancinantes enquanto se embrenham nos corpos uns dos outros. Um café não basta. Faço chiar a cafeteira. Pousadas, folhas a carecer de revisão e as tendências financeiras do império. E o frio que não desanda. Do saguão vem agora uma música que se entranha no cheiro do café torrado “Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos…”. Dona Perpétua deixa o rádio ligado o dia todo, mesmo quando está à porta. Um ronco provocado pelas convulsões pépticas cresce-lhe da boca até me ferir os ouvidos. Fá-lo com assaz frequência. E parece que faz de propósito, para o arroto ganhar fundura nas paredes do saguão. Fala com alguém. “ E eu, pobrezinha, a perguntar à minha Mãe o que era aquilo do camelo. Éramos tão tontinhas, São”.
Desde o frio em volta do cobertor até agora, a vida desfia-se célere. E esta agitação buliçosa confunde-me as vontades. Às tantas tinha ficado melhor na cama, se o fim era não fazer nada. Preciso de me sentar e esquecer o bairro. Mas ele está aí, brandido à janela, onde a mulher da peixaria solta umas frases sincopadas pelo fado.
pânico
Perdidos, os sons libertos das montagens rasgam os olhos de sarro. Mais emprego, melhor emprego, emprego da velha ilustração ferrugenta dos novos levantes de raiva contra o aspersor que chupa os miúdos encarquilhados. Afasias dispersas do mindinho à cartilagem, apostasia extática do fulgente ímpeto que se quer, virado contra a roupa, dobrada em três quartos, sobre si mesma, sobre as outras, autorizando a pingue distribuição de cotão enrolado em pó, amontoada, desgrenhada num pináculo de afazeres por vingar. Serram-se as criaturas falazes em avos, desmultiplicam-se quando a aritmética se ludibria e mil milhões de súplicas, progridem irreprimíveis naquele esquálido corte pontilhado. Porque se dobram as blusas às metades, quando o emprego é farto? Estremece o ventre do lado de fora, pela janela aberta se engoma directo à goela que se enrosca numa novíssima luta do humor plácido dos acertados. Certos como o tambor que sangra os tornozelos exangues na translação do conforto às pingas, assim se quedam os humores adiantados. Do armário ruge a voz solene dos valentes, pranteada às escuras contra a tábua mordaz, empunhada de fora pelas presas dos bem-aventurados. E conquanto clamam dignidade responde-lhes a fenda céptica da corrente de ares talhados até aos jardins da levitação. A virgem morta, mãe adoecida, acena de longe, de sorriso alvar na fronte, enquanto afaga o pai, ignaro na sua sorte impudente, do amor a emputrescer a femoral. O tambor ruge, e o escravo prateado por requisição implícita degola a santa trindade com o garrote de penas erguido acima do tronco. Arrosta os músculos de areia contra a tábua, o armário, o tambor, esgana-se-lhe o coração, tudo e o mundo. E o mundo liquefaz-se em dois miligramas de areia.
eléctrico
Passaram-se vinte e dois dias, treze horas e quarentas minutos desde que arrancámos. O eléctrico oscila tangente à sé. Daqui a vinte minutos estaremos no Chiado. Daqui a exactamente a uma hora e dezassete minutos oscilará novamente tangente à sé. As quatro coreanas, encaixadas como um pacote de iogurtes, nessa altura, levantar-se-ão, será hora de mudar as posições, por causa das cãibras e dos observadores. O último pacote de iogurtes que se esqueceu da rotação foi expulso e nunca mais ninguém o viu. Os inspectores levaram-nas. Isso foi no décimo terceiro dia. Adormeceram. Esqueceram-se das câmaras. É verdade que o observador pode adormecer, mas já por causa das cócegas são quatro observadores, e se um adormece, sobram os outros três. Se bem que o que falhar tem o mesmo destino do pacote de iogurtes, que, acrescento, também não sei qual é. Grande coisa não há-de ser. A bem do progresso. Já me dói o braço de estar a segurar a correia de apoio. As próximas doze horas são sentadas, é o que me vale. A motorista faz girar no sentido do ponteiro dos relógios o moedor de batatas, ou assim se assemelha aquilo que devia ser o guiador. Já dei por mim a olhar para debaixo do tablier com o guiador, na esperança de ver escorrer um puré leitoso. Já sabemos, para a direita o trajecto mantém-se suave, se o fizer correr para a esquerda é porque a tracção vai ser accionada, e aí vêm os solavancos. Tento estar atento, para não ser apanhado de surpresa pelo esticão da travagem e os soluços que de seis em seis minutos me empurram para a frente e depois para trás, pareço um meco ao vento. Sobram sempre cinco minutos de intervalo, em que posso descansar as pernas. Depois destes dias todos já quase sei antecipar sem olhar para o motorista quando se darão as travagens. É imprescindível, por sinal, pois os observadores não gostam que se passe muito tempo a olhar para o motorista. Nos ensaios explicaram-nos: de preferência traçar com o pescoço um ângulo de duzentos e setenta graus durante uns dez minutos, depois rodar o corpo noventa graus para um dos lados, de forma a apanhar os noventa graus em falta pela incapacidade de torção completa do pescoço, repetir o processo, ao fim de dez minutos rodar, sempre no mesmo sentido, para se distribuir igualmente o tempo por todos os quartos.
O casal de italianos acciona os flashes e encandeia-me. Alguma coisa deve ter falhado no planeamento, visto que também só têm indicações para utilizar as máquinas de dez em dez minutos, que coincidem com os momentos em que não os olho directamente. O casal de italianos faz parte dos originais. São muito sossegados e certinhos, e têm uns pulmões de aço. Da quase hora e meia que dura o trajecto, eles gastam pelo menos uma hora a esbracejar muito e a gritar. Nunca deixam que se perca o tom presunçoso do linguajar. E conseguem dormir no momento do colo. O momento do colo dura três horas, dois trajectos, e é quando fazemos o efeito multidão. Aproximando-nos da janela, fingimos que o eléctrico se encontra a abarrotar. A italiana senta-se no colo dele, o que lhes dá altura, e ocupa quase toda a janela. E a verdade é que eles conseguem dormir, com os olhos abertos. O que acaba por ser injusto, na medida em que ficam com mais três horas de sono que qualquer um de nós. Admito que não deve ser fácil nem confortável. Os inspectores não se incomodam, desde que mantenham os olhos abertos. Por vezes, ela fecha-os mas a mecha de cabelo encaracolado tapa-os da vista dos transeuntes. Aquando do efeito multidão, aparecem os elementos em part-time. Saltam para os degraus exteriores do eléctrico, dois de um lado e dois do outro, e apinham-se lá atrás. Não os conheço, visto que nunca entram, a não ser que seja necessária uma substituição rápida e de emergência. Mas não são muito simpáticos. De certa forma, sentem-se diminuídos ao nosso lado. Têm a mesma idade que eu e o rapaz das barbas, mas não foram escolhidos para a tripulação original. Como nem eu nem ele cometemos até agora alguma infracção passível de substituição, guardam-nos rancor. Ora, é passar bem. Os testes foram exigentes e não é qualquer um que consegue passar quatro horas a olhar para uma tela branca sem se mexer, é árduo. Os testes duraram quinze dias. Primeiro foi-nos dada preparação ideológica, para atestar da inquebrantabilidade da nossa fibra. Elucidaram-nos acerca do alcance da empresa, do significado de que se revestia para o futuro do progresso. Depois foram os testes físicos, nem me posso lembrar. Ainda que de cada vez que me lembre se esvaia qualquer ansiedade que possa ter aqui. Foram bem mais duros, os testes: dezasseis horas seguidas a fazer girar um torniquete, dois dias inteiros a fazer os dedos trotearem num tampo, sem parar, até ao ponto de os ver afastarem-se do corpo, como que me fossem roubados: percepção dissociativa, asseveram. Os inspectores disseram que não é motivo para susto, é um efeito colateral controlável e passageiro.
Está na hora de fazer rodar os calcanhares. O eléctrico prepara-se para subir. Na verdade, chamar a esta composição de eléctrico é esgueirar-me de certo modo à verdade. Depois que o último eléctrico foi abolido, esta passou a ser a única réplica a circular, se bem que tenha sido encurtada a dimensão. E apesar da permanência dos carris, a ligação com o solo faz-se por via magnética. Alguma coisa teria de ser feita, depois do episódio trágico que ditou o fim do eléctrico, quando aquela família se viu primeiro bloqueada e depois trinchada entre o eléctrico e a parede. Uma família inteira, pai, mãe, filho e filha, não sobrou nenhum para amostra. Agora nem que estivesse uma vaca no passeio, as novas dimensões do eléctrico e a colocação do magneto à direita do carril, impossibilitam qualquer acidente.
Podem pensar que é fácil mas é um trabalho penoso. De cada vez que subimos em direcção à baixa e o eléctrico se abana, as pernas tremem-me. Quando temos por paisagem de fundo o rio, é regra arreganharmos a tacha quase até se nos saírem os dentes da boca. Já para não falar de quando nos obrigam a ficar sentados, a mim mais ao rapaz de barbas, lado a lado, dizem que produz harmonia, cada um a segurar o seu livro, dos quais já lemos o mesmo capítulo vezes sem conta, ele n’”a Viagem” e eu com o “Debaixo do Vulcão”, até os braços não nos poderem falhar, tamanho é o peso. E queixamo-nos nós, surdamente, e esquecemo-nos do casal de velhotes que se arrasta pela carruagem adentro, e foi-lhes expressamente solicitado que caminhassem com os pés a travar o chão, para não haver a menor dúvida de decrepitude. É verdade que à noite podem dormir no alçapão, toda a gente sabe que à noite não há velhos no eléctrico. Ainda assim…
Passamos agora pela Vítor Cordon, aqui as curvas atacam directamente os rins. Mas já falta pouco. Os italianos adormeceram, é a vez deles. Sobra o silêncio, só cortado pela engrenagem fictícia. Esperam-me sete dias, dez horas e vinte minutos de pé e sentado, a concorrer para que este seja o eléctrico jovial, sincero e sincrético de que nos falaram os formadores. A bem do progresso, paz e brilho no futuro.
Pobre rapaz
Gostava de te escrever e escrever-te, para lá longe, onde sei que me esperas, e para o mundo, para que não ouse olvidar-te. Desisto de te escrever, pois, na certeza de que as palavras se irão dissolver no muro da distância que se nos interpõe. E olho o rio, como olhávamos em tempos, sem mãos dadas, o rio que apodrece nas cores lúgubres resvalando para o seu fundo. O rio nada tem a celebrar senão as suas veias, que se esparramam até terra para por fim se evolarem na subida, onde o sol acende a centelha da alegria. E o rio devolve-me em força a tua memória, os dedos ossudos que me percorriam o corpo da coxa até à púbis, um movimento já tão costumeiro, perdido de ardor, mas cuja lembrança hoje me arrepia, não sei se pela sugestão necrófila se pela segunda virgindade que a tua partida me ofertou. E vejo ao fundo, parado, um rapaz, que destoa da maralha, e que anda perdido, no meio das gentes, com um sorriso medroso, e se assemelha a ti de alguma forma que não capto, mas que sim, se parece contigo, na sua meninice tão diferente dos olhos caídos destes que aqui passeiam, para cima e para baixo, à espera de nada nem de ninguém, à espera do dia seguinte que nunca vai chegar.
Junto ao rio mantém-se o trânsito de uns quantos tão mortos como tu, carregando o gládio frio sobre as costas, caras que se deformam e revolvem num pastiche de sargaço, que o rio não os poupa. As paredes enfumadas cercam-nos durante o caminho para casa, arrastando-se sem se perguntarem se algum dia estarão aqui escrevendo para alhures, para um sítio perdido onde só as recordações têm lugar. Enraivecem-me de uma raiva serena, a raiva a que só têm direito os que sabem para além da vida. Dão-me pena, com as suas carantonhas que nem todas as máscaras do mundo poderiam disfarçar. E andam, e eu de cá de cima diviso-os como formigas, como se por um momento Deus me outorgasse o direito de os vindicar como bichos numa jaula, bichos tontos e lúgubres que não sabem olhar para cima e ver as cores do sol e da vida, sempre contra o rio, esperando que de lá se erga uma nova bruma que os esconda das propriedades vivificadoras da luz e da vida. Eu remiro-os e as lágrimas secam-se, folgando as que me escorrem pelo esforço, a boca desenxagua-se, e que raiva sinto por estes coitados, que na falta de um, restará outro para o esperar daqui de cima, a meu lado, certos de que a vida não espera e que num só gesto tudo se transforma, se arruína. Depois da partida nada há a esperar. E nós dois sabemo-lo, mas se o tivéssemos sabido antes, o que não podíamos ter vivido e sonhado, com a cabeça espetada ao alto, a passear transidos, levitando acima destas almas que se empurram umas às outras, se por um momento o soubéssemos, de quanta alegria nos teríamos empanturrado. Ter-nos-íamos enlevado no amor de todos os dias, desaperta as calças, descalça as meias, cada um no seu canto, apaga a luz, um beijo para selar e garantir o amor, tiro-te os boxers mas não até ao fim, deixo-os junto aos joelhos, o mínimo dos mínimos, enforcas as tuas ancas nas minhas, e o amor feito. Quanto não teria sido diferente, se soubéssemos então da ira que me legaste, se a conhecêssemos, se a dominássemos como dominávamos a tristeza de todos os dias. Depois que me deixaste só, por aqui, a perscrutar e a avaliar das vilezas destes animais feios, a benzê-los com o opróbrio que lhes falha, a velar-lhes as almas purulentas, a alegria perdeu o sentido. O sentido que nem o infortúnio destes desvalidos me devolve, o sentido de te ver mergulhar os cabelos no meu peito como se me auscultasses. E esses olhos rasos a clamarem pela ajuda que eu somente podia oferecer-te revolvendo-te o cabelo até raspar com as unhas no osso. Mas era eu apenas que te via por dentro, tu já não podias ver, e não pude avistar a fera peçonhenta que te consumiu até ao osso, devagarinho, até já nada sobrar da força que te alumiava os olhos.
E o rapaz olha-me de novo, depois acena-me, e a alegria imensa que bolsa é a tortura que me raspa por dentro. E não, não são só os olhos. As calças, as calças, as mesmas calças puídas que se enfeitavam de novas como de cada vez que as engomava, as mesmas calças onde o cheiro lúbrico se espalhava, tecido seco contra a pele húmida, quando as vestias ainda na borda da cama, tragado pelo breu do quarto. As calças, entre tantas, que varri do quarto depois de teres partido. E tê-la-ias queimado a todas, à espera que se consumissem nas chamas, o tempo prolongado de um adeus crepitado, não fosse o bom senso. E a tua morte devia tê-lo extinto, hoje sei que mora distante, o bom senso e outras teimosas palavras dos vivos. O miúdo ri-se, é natural. E eu antevejo a mágoa e as trevas a saltarem-se-lhe ao caminho, e sorrio. Nem o cheiro pode ser o mesmo. Vejo a capa pardacenta que o cobre e arrasta para o caminho exaurido dos que o rodeiam. Pobre rapaz, que o pano seja a sua perdição.
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