serve-se morto

Je sais que j’aurai peur une dernière fois.

hoje nunca mais lá chegamos

Livrei-me do tijolo que não cabia na bolsa,  o suplente ainda não engrenou, sobra o tempo para continuar a perguntar-me pela sarna sugerida, que me permite obliquar as pernas para o espaço adjacente. Estranho, porquanto o cheiro nauseabundo a urina impregnada mesclado com o mofo, devia resgatar-me ao leque de menos recomendáveis do espaço. Um persistente acaso de, mesmo com a sala prestes a formar a segunda camada, todos , mas mesmo todos, me recordarem a condição de burguês, um esteta no meio de gente feia, que se insulta e que entrementes distribui fruta ao rapaz a meio da acção de galanteio (sedução com ipods mas ainda assim sedução).

A verdade é que isto só acontece porque a Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore provoca demasiada coceira a quem tem como fim imediato deixar de ter fins. E porque, tal como o vazio se encosta a mim, apesar do afinco que empresto à capacidade de não ouvir o gajo de trás a falar sobre o teste que foi adiado ou o mastronço da frente a grunhir “Carrega Benfica”, há sempre, mas mesmo sempre, ainda mais sempre do que o sempre anterior, alguém que relembra que “hoje, nunca mais lá chegamos”.Quero que se foda o oxímoro, escusam é de me servir este amargo naco de merda, embrulhado na evidência de todos os dias, como novidade, especialmente sendo oferenda de um frequentador da ala geriátrica do S.Maria que, julgando o meio de locomoção que utiliza, já devia ter  percebido esta merda há meio século, mais metro menos metro. A crueldade desta voz, em parte dirigida ao motorista do 35,  volta e meia calha ter sido parido no Belém do Pará, não resulta só do chauvinismo desta gente , chauvinismo imperfeito, pois não é estranho ver juntar ao leque de arengas algumas dirigidas à lastimosa pátria, é-me também endereçada. É só mais um divertimento infecto  inerente à condição de repassado, a cara tisnada pelo candeeiro da sala, os olhos de neurasténica, o cabelo mal pintado para oirar a cabeça acachapada : “hoje nunca mais chegamos” tem lá tudo, a trapaça, a crise, a existência, o esgadanhar retorcido das tripas, o hiato entre os 7 minutos da paragem e os 40 minutos de entra e sai, chapada para a frente, escarradela para trás, a filha-da-putice de quem já pode ter sonhado, o cinismo de quem nunca sonhou,o nojo dispensado ao que nunca teve de vergar a espinha para sacar duas côdeas. No fim dói mas sara. Rebusco as  palavras acerca do palhaço, que deu um tiro nos cornos, graças a deus, palavras, não-me falhe a memória, desta ordem: aqueles que só sonham dão com os costados  na terra bem cedo. Quando percebem a necessidade da razão, a inépcia cultivada ao longo de anos trata-lhes da saúde e acabam como o pobre do clown.

Fevereiro 4, 2010 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | Sem comentários ainda

a minha iconoclastia acaba aqui

Janeiro 16, 2010 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | Sem comentários ainda

A classe, o socialismo e os frangos

“Tanto os frangos como as galinhas resistiram dois dias sem grandes demonstrações de desespero, mas ao terceiro começaram a picar-se uns aos outros, as galinhas deixaram de pôr e o cacarejo da fome partia-nos a alma… Oh, se foi um triste regresso ao aviário. E o que veio depois foi ainda pior, porque o exercício lhes tinha aumentado a fome e os malditos frangos começaram a praticar o canibalismo.

Ao décimo dia estavam vivos metade dos frangos, as galinhas não punham ovos mas resistiam, e embora agora me pareça incrível, uma, só uma galinha pôs todos os dias o seu ovo da praxe. Eu apontava  no relatório de produção: ovos-um.

- Era um galinha com consciência de classe – assegurou Arancibia.

- Uma heroína do trabalho socialista. Ao décimo primeiro dia, hesitando entre o suicídio ou o assassinato em massa, decidimos pelo segundo, ser criativo era a palavra de ordem, de modo que reuni os os homens mais fortes do aviário, armámo-nos com umas espingardas de caça e saímos em dois camiões rumo à fábrica de rações.

- … as coisas não me parecem tão claras. Esses tipos que tinham ocupado a fábrica de rações também eram camaradase não se resolvem a tiro as contradições no seio do povo.

- Precisas do sopapo? Evidentemente que eram camaradas, também o eram aqueles que ocuparam umas vinhas e decidiram beber toda a produção alegando que estavam há anos a chupar as sobras.

- … Alguns de nós tinham sede de justiça, sede de igualdade social, por que razão não teriam aqueles tipos sede de bom vinho? Os pequeno-burgueses têm uma inapetência natural. É melhor continuares com os frangos.

- As classes podem conseguir acordos temporários tácitos que não danifiquem a estratégia da vanguarda condutora. Di-lo Lénine em O que fazer?- esclareceu Arancibia.

- Lenine não percebia nada de frangos e a camarada Nadezda Krupskaia não era capaz de fritar um ovo. Di-lo o careca em Los Porfiados Hechos – testemunhou Salinas.

-… e a Camarada Kollontai denunciou a perversidade dos mitos sociais transformados em escolhos para a liberdade do amor. Quero saber  o que aconteceu ao raio dos frangos.

- … Carregámos os camiões a toda a pressa, regressámos ao aviário, enchemos os comedouros generosamente e fui dormir. Não dormi muito porque, poucas horas depois, alguns camaradas foram acordar-me dizendo que as galinhas e os frangos faziam um bacanal nas capoeiras. Pondo as coisas nessa linguagem que tanto te agrada,  os bichos estavam entregues ao mais burguês dos liberalismos e por nossa culpa.  Com a pressa, em vez de carregarmos os camiões com ração, fizemo-lo com sacas de um complexo vitamínico que devia ser administrado na proporção de um punhado por cada duas sacas de alimento.

- Nada disso importa se temos o calor das grandes verdades proletárias…

- Uma merda. Nunca foi tão caro produzir um ovo ou ver crescer um frango. Odeio-os com toda a minha alma.

-Peito ou perna?”

Luís Sepúlveda , A sombra do que fomos

Dezembro 29, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | Sem comentários ainda

atacama

Regado de ultraje,  acende o rastilho da raiva mas, decepados que estão os círios, guina o coração para dentro.

O cão bate no occipital, o berço esfrega a tristeza no cal, o olho asperge o arsénico que o há-de guinar para sul…

Dezembro 29, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | 2 Comentários

Mghmgh…

 Truque Inoxidável faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo,desenho faca no peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

-Hoje não matarás!

Al Berto

 

 

-Mghmgh…

- Sim, de acordo.

- O cabrão é mais do que os outros.

- Hum,hum…

Os aros já só são suportados por cola, impassível delicadez no gesto, a barba que nunca deve ter sido muita descai rarefeita. Tremores só os que não deixam fixar o volante. E esgota-se aí a contemplação do outro, tão parco de interesse como os outros que carregam o cinzento de uma vida miserável, desmembrada de superação, a não ser a dos outros. Outros que já começam a fastidiar-me, ao fim de meia dúzia de linhas. Podem irritar mais que o torno que comprime a facie esquerda, é como dar uma martelada num dedo, as sinapses deixam de ser processadoras de dor.

Dois dias sem dormir permitem requintar ou requentar o insidioso da forma geral do bípede , o bolo na garganta quando o belo do gesto é exaltado ou quando, ai que são tantos, gorgolejam a ultima ratio da consumação vanguardista do altruísmo multimodal. Num mundo onde tudo é encardido, que o escarro no de baixo seja o polir a beiços o sapato do de cima.

Na verdade, não incomoda pactuar com os outros, amassá-los e fundi-los sem critério e juntar-me ao desfile de necrófagos. O voluntarismo foi extraído com os molares, incomoda sobretudo não conseguir disfarçar a repulsa que provocam, não esquecer que a água que bate nos costados quer extirpá-los todos os dias de manhã, nem sequer todos os lábios feridos pelo simples estar. Ranger os dentes cada vez que me enterneço com a veneração colectiva da comiseração. O que martiriza é não conseguir domar o quimo que sobe à boca na figura de palavras e que vai, tão melancólico, solapando os alicerces do quotidiano. Extrair o desprezo incluso, sem anestesia, é o que falta.

Até lá não me perguntem porque não escrevo coisas simpáticas… Mghmgh…

Dezembro 18, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | 5 Comentários

dez anos depois

Novembro 20, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | Sem comentários ainda

mudar de vida

Há anos fodidos. Anos volvidos sem investir a minha sorte no euromilhões por uma questão de princípio, rebento as finanças numa merda de uma box para me amargurar de cada vez que assisto a 90 min (nem na época do skhuravy me sucedia isto), arrepio-me todo de cada vez que um trolha insiste em provarà turba que é impossível traçar uma perpendicular à lateral com a bola, é marrar na coisa, os 50º um dia vão dar recto. A outra estrela (10 milhões) acolhe a bola tão bem como o maciço da pedreira, o caxineiro mete dó, nem o cão do chileno me safa…150 euros, nível um de treinador e eu fazia aquela merda. Trepos, só vejos trepos, e o benfas a preparar-se para a vitória final, e nada me enoja mais do que isso. Não bastava o ano da perfídia absoluta, ainda dei por mim a ter saudades dos formulários online, do desterro, e a insultar um funcionário público (e sim, isto é assaz extraordinário , sempre tive aquela estranha peia que me impede de desatar a insultar mangas de alpaca) enquanto tratava de me chibatar por dentro (raios fodam que um gajo prescreve se não acabar de escrever um livro num ano, mas isto é em outubro, em julho não era, em setembro era uma prescrição assim daquelas pequenas que se resolvem com um requerimento ao Exmo. Sr. Director). Kafkiano o caralho é so mesmo mau, enfim que nos entretantos, estou como que um leproso ou pior que isso, os funcionários públicos querem que um gajo sinta na pele o que é ser olhado de soslaio, e portanto, mentem, descaradamente (da próxima vez penso também em cumprir prazos, mas a revolta é justa). Aqui chegado, basta repetir a mecânica de todos-os-dias, aguçar a tendinite, e aguentar no rame-rame desta cegarrega lamurienta. Ou agir (não estou convencido mas vi o Scarface ontem, e um gajo só tem a palavra e os tomates)Resolução de ano novo: Vou tirar o raio do curso, 1º nível, mandar toda a gente para o raio que a parta, esgotar os meus pesadelos entre um Abel e um Caicedo, e poder plagiar o Pacheco: “ora aqui está o que poderíamos chamar de uma deliciosa sandes de merda”. Isso e deixar de fumar, para não fazer a micro.

Novembro 4, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | 1 Comentário

quotidiano incongruente*

estar a gramar com Aron e Morgenthau e estar casi, casi a desalambrar .

* medley de Miguelanxo Prado (que falta me faz…)

 

Outubro 28, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | Sem comentários ainda

errata

Devia ter vindo antes do anterior mas enfim, é para picar o ponto com uns dias de atraso

Outubro 20, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | Sem comentários ainda

qualquer coisinha simpática

à trois..

Falta um…

Outubro 20, 2009 Publicado por josepedromonteiro | Uncategorized | | 2 Comentários