o bairro
“Está frio, foda-se” – a cabeça furta-se-me à quentura dos lençóis. A esta hora já se desalinharam, soltos do fundo da cama. Aninho-me entre eles, prendo-os com os pés. Em abono da verdade, é um manifesto exagero. Não é o frio de lá de cima, aqueloutro que um homem deita os bofes pela boca e vê uma nuvem quente a perfilar-se à sua frente. Uma nuvem fétida, tão fétida como este bocadinho esconso da cama em que se eleva a temperatura à custa da salubridade, que é um quente cheio de baba ressequida, de cera, de pêlos e cabelos soltos, nossos e doutrem que já se alçou da cama há um bom para de horas. O despertar está tão próximo que ao calor geral se contrasta uma pasta fria de baba que ainda não secou e se insidia nos ouvidos. E o calor alheio que já fugiu da cama. Mas as meninges queimam, já passou da hora. Iço o torço de repente, fazendo frente ao frio agreste. Uma tontura inala-se num repente e fraquejo. “Força, é só o repente”. Perfilo-me ao pé da cama, já não sei se é o frio se é o medo das escolhas que se impõe mal um homem se liberta da modorra horizontal. Pouco importa. Enche-se a taça com cereais, coisa rápida só para cortar as tonturas e para forrar o estômago. Um arrepio percorre-me o corpo, provindo do saguão. Mania de deixar a janela aberta, não se vá dar o caso de acabar morto surpreso pelo monóxido de carbono. É um saguão fundo, sete ou oito metros de profundidade, caminho para o vento que zurze a casa. Defronte da minha janela, a da Dona Celeste: não se vê vivalma. Graças a Deus! Sem café torna-se difícil. E já agora, é de ver se os bicos estão bem fechados. Tudo enquanto me passeio com a taça em riste, sorvendo umas colheradas rápidas, à medida que me impaciento. Falta o café. Na cozinha, fechada a janela, os bicos, a botija, o cinzeiro. Inventariados que estão na lista da segurança, autorizo-me a passar para o duche. Mas falta o café, raios. Ou a cafeteira ou a leitaria. “O de máquina é mais forte”, arranca-me mais definitivamente ao torpor. É só o tempo de enfiar umas calças e uma camisola por cima do pijama de flanela engelhado, calçar as botas e sair. E no entanto, lamento que ainda não esteja convencionado o trânsito em pijama. Seria tudo tão mais fácil, e escusava-me a esta contrafacção pobre de o esconder por debaixo das roupas, se à prática não lhe acoplassem de imediato o selo da danação. Arrasto-me pelas escadas, e temo pela Dona Celeste, que a esta hora tão estranha para mim ainda se pode lembrar de me pedir um favorzinho. E sem o café, não há favorzinho nenhum, escapam-se-me as forças e as vontades. Sem o café quase falho um dos lanços, prontinho para me escarrapachar contra a porta, abrir a cabeça, dar cabo do cerebelo, vazar-se uma vista… uma lista longa que se assoma nas parietais e está ali ao alcance de um gesto falhado. Destravar a fechadura posta ao contrário e que só abre para a direita, escapulir-me aos pingos grossos que caem à porta, essa é a primeira tarefa. Depois fechá-la com doçura, à porta carcomida pelo caruncho e pela humidade que fecha melhor mas é com um empurrão vigoroso., e que ninguém até hoje cuidou de mandar arranjar, ”devagarinho, que é para a poupar, que ainda tem que durar uns anos, Deus nos acuda, que a vida hoje não está para gastos”. Saio, finalmente. À esquerda, da portinhola de vidro incrustada na porta, remira-me D. Perpétua. A cara rotunda e as fauces gordas, promessa eterna de bonomia, são imediatamente traçadas pelas arestas duras do cenho, e das rugas que lhe atravessam as bochechas. Tem o raio dos dentes impecáveis, a mulher, às tantas à custa do rilhar permanente. O olhar faz esquecer, implacável, qualquer pretensão bonacha daquela cara. Arranco-lhe a ferros o bom-dia. Vai-me seguir com olhar até dobrar a esquina e depois voltará à vigilância do sopé da porta, revolvendo-se de alegria por dentro, de cada vez que admoesta um incauto. “ Uma pessoa tem de fazer valer os seus direitos logo de início, sem contemplações” disse-me uma vez. Assertiva e bem-falante, ao contrário do que era de julgar. Ignoro o olhar dela e espreito para cima. O prédio rugoso que me dá dormida e se erige decadente. São todos iguais, por aqui, mudam as cores, entre a alvura morta e o amarelo icterício . Sobreviveram ao terramoto, quase de certeza. Ao lado, o outro prédio, ornado a vigas de suporte, roto no topo, em permanentes cuidados. Lá em cima, vê-se a última viga e imagino-a balouçar. Se não for a viga, há-de ser uma telha, alguma coisa há-de acertar na cabeça de alguém, um dia destes. E se não for telha, é um dos cabos suspensos por cima das escadinhas que acaba a chicotear o pescoço de um transeunte, a deixá-lo esticadinho. E sorrio ao ver a pedra bruta que suporta tanta gente por aqui. O clube a destoar, lá longe, muito quadrado e imaculado, branco, branco, com umas ameias a enfeitarem-no no cimo e as flâmulas impantes a comporem o ramalhete.
As escadinhas defronte da porta estreitam-se à medida que se desce e é para lá que vou. “Ai menino, que estou muito zangada consigo” oiço. A voz vem de cima. Espreito e lá está Dona Celeste com um sorriso miúdo. “Estou a brincar consigo, não ligue, já sabe como sou” e as mãozinhas espreitam da janela, mirradas e inchadas nos nós ao mesmo tempo. Agita-as, como quem diz “que parvoíce”. Fechadas, com os dedos tortos contra a palma da mão. “ Mas então vem à rua sem chapéu, com esta chuva. Se a menina sabe”. E ri-se, ri-se como se toda a tristeza da vida fosse extirpada por aquelas gargalhadas. “ Não faça caso, já sabe como sou, ora, uma velha maluca. Vá lá à sua vida”. Aceno-lhe com a mão envergonhado, um tanto ou quanto infantilmente. “Como está, Dona Celeste?” E é evidente que está bem, pergunta espúria tanto mais que a resposta há-de ser oposta. Está sempre uma desgraça. Não há dia em que o não esteja. Havia de ser diferente de todas as outras velhas, para mais entrevada e enlutada para todo sempre. Um poço de tristeza que irradia uma alegria adolescente. “Vá lá à sua vidinha”. Pressinto nas costas cravar-se o olhar desdenhoso e desconfiado da Dona Perpétua.
A descer as escadinhas, esbarro-me contra um mastro improvisado com um pano vermelho. Apoia-se num guarda-chuva e enterra-se pelo chão adentro. Sinaliza a falha de calçada provocada pela tromba de água da noite passada. As pedras cederam à força das águas e um buraco terroso pode agora quebrar uns ossos a um turista mais distraído. Ao lado, vêem-se as paredes descascadas de azulejo por salteadores da feira da ladra, que os vendem como souvenirs. Mais a gente que os compra para os diabo que os carregue.
Na leitaria, um barulho atordoante cega-me os sentidos. A dona da peixaria grita do outro lado da rua “ Prepara-me uma torrada e uma meia de leite que já aí vou”. Um indigente baixa-se até ao cesto do lixo de onde pega num pedaço de torrada que atira para as goelas. Emborca um macieira de um trago. Um espectáculo memorável. Ao contrário da mais ordinária das gentes, o proscrito envolve toda a borda do copo com os lábios e, num segundo, vira o copo de pernas para o ar, fazendo o líquido descer até lhe arranhar as tripas. Soluça. Uma mãe corre afoita atrás da filha, ralhando-lhe por não comer a comida. Uma mãe pressurosa mas ciosa, como todas as mães, no fim de contas. Até que um brado se faz ouvir “ Carolina, ou vens aqui ou dou-te um biqueiro na cona”. Espero o congelamento das gentes na leitaria mas nada. As conversas prosseguem, e a miúda acerca-se da mãe, respeitosa. Ao lado, um homem dos seus quarenta anos, seco de carnes, chupado até ao osso, de tez tisnada, conta uma história. “ E então os rapazes, lá da praxe ou que é aquela merda, chegam aí e metem-se com o moço”. “E tu não podias não te meter, caralho, cheirou-te logo” resmunga a mulher, sentada a seu lado. “Que querias que fizesse? Ele estava com a cachopa, e eles eram para aí duzentos” e volta a cabeça para o interlocutor “Os tipos estavam aí os berros e nós já os estávamos a catar, mas tudo tranquilo, ninguém estava numa de se chatear”, “ Pois não que não estava, viu-se”. “ Está calada, porra, e deixa-me contar a história!”, “ Não me mandes calar” , “Oh, caralho, já me estás a moer o juízo” e olha-a muito fixamente, até ela ceder e rodar a cara, como que assentindo “ Então os filhos da puta foram-se meter com ele. Pensavam que ele não era aqui do bairro. Nós éramos uma dúzia no máximo”. A miúda desata a chorar e eu deixo de seguir a história. “ Que vai ser? Não ligue que isto não costuma ser assim” – adverte-me a senhora da leitaria, no seu sorriso gordinho. “ Um café, se faz o favor”. Volto a ouvir o homem magro “Havias de os ver, ai se havias… Todos fanfarrões, depois até parecia que ganhavam lanço a descer por aí fora até ao castelo. Caralho, que aquilo é que era correr. Isto aqui, a malta do bairro é toda muito pacífica, mas metem-se com um de nós….a um deles, espetei-lhe um tento que lhe abri logo o nariz. Coitado…” E ria-se “Então não se vê que não querias nada andar ao bochecho? Raios ta partam que nunca mais cresces” resmunga a mulher. “Oh, Mulher, foda-se” e vendo que o outro continuava atento , continua a descrever mais pormenores. Eu rio-me para dentro, há uma justiça naquela contenda. Lembro-me da mole vestida de preto na noite anterior aos berros pelas escadinhas fora. Uma voz feminina, de uma das janelas, mandou-os calar ao que responderam “Oh velha, queres que te vá tirar o pus?” Sim, é de justiça que se fala. Ninguém se mete com o bairro. E dá-se-me uma vontade enorme de chegar perto do homem magro e dar-lhe um abraço mas contenho-me. Sim, justiça, divina ou não, falha de proporcionalidade, mas justiça, um filho-família, a estrebuchar de altivez, insuflado de fleuma pelas insígnias que ostenta na dragona, farto de humilhar os de baixo, a levar um prego certeiro de um tipo do bairro, seco mas duro. Pago e volto a casa. À entrada, já subidas as escadas do prédio, Dona Celeste pede-me para lhe abrir um frasco “ A chatice da doença”.
Volto a casa. O frio húmido da rua ainda se aloja entre os dedos dos pés, por dentro das meias. Já não há desculpa para me esquivar ao banho. Penso na sorte que tenho em o prédio em frente estar embargado. Resta alguma privacidade. Não muita porquanto a vida dos bifes ou boches de lá de cima, depende, se revezam a passear de tacões, a largar urros lancinantes enquanto se embrenham nos corpos uns dos outros. Um café não basta. Faço chiar a cafeteira. Pousadas, folhas a carecer de revisão e as tendências financeiras do império. E o frio que não desanda. Do saguão vem agora uma música que se entranha no cheiro do café torrado “Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos…”. Dona Perpétua deixa o rádio ligado o dia todo, mesmo quando está à porta. Um ronco provocado pelas convulsões pépticas cresce-lhe da boca até me ferir os ouvidos. Fá-lo com assaz frequência. E parece que faz de propósito, para o arroto ganhar fundura nas paredes do saguão. Fala com alguém. “ E eu, pobrezinha, a perguntar à minha Mãe o que era aquilo do camelo. Éramos tão tontinhas, São”.
Desde o frio em volta do cobertor até agora, a vida desfia-se célere. E esta agitação buliçosa confunde-me as vontades. Às tantas tinha ficado melhor na cama, se o fim era não fazer nada. Preciso de me sentar e esquecer o bairro. Mas ele está aí, brandido à janela, onde a mulher da peixaria solta umas frases sincopadas pelo fado.
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extraordinário* keep on
Comentário por eternal sunshine | Março 18, 2011
Arre! Que má educação!
Comentário por Milu | Março 20, 2011
Hipersensibilidade?
Comentário por jpm | Março 21, 2011
Fiquei algum tempo a tentar equilibrar-me. C’um caneco!
Comentário por Milu | Março 21, 2011
Não é assim tão violento.
Comentário por jpm | Março 22, 2011