serve-se morto

Je sais que j’aurai peur une dernière fois.

embarque

Ele encosta a testa contra a testa dela. Sabe que a partir da linha os dedos já não se tocarão. Um longo fio de ar erguer-se-á para lhes recordar a distância. Olham em volta e sentem os passos cruzados e apressados dos viajantes que os surdam. Um movimento desesperado que lhes electriza os sentidos, conjugado com a voz que diligentemente canta um arrazoado de informações “ Gates, Departures and Chegadas, Segundo Piso, Embarque”, o ponto ao sinal da campainha ordena o nexo das frases. E a testa dele franze-se, gotículas de suor ameaçam descer-lhe até ao nariz, ao ver o olhar circunscrever a cabeça dela para se afunilar contra a linha, a última linha. Apertam-se, um contra o outro, e as lágrimas cavalgam as faces dela, já tisnadas da emoção contida. Ele dá por si a irritar-se, o desconforto varre-lhe o corpo, afinal de contas são só uns meses. Mas ela aperta-lhe a mão com força, como que para dar recorte físico à dor. Como se lhe exigisse que a dor dele não fosse inferior à dela, regra primeira do gostar, a cravar o mandamento do equilíbrio na pele. Nada de artimanhas para rutilar a dor, é dever burocrático suportá-la de frente. Como um homem. E ele inspira pelo diafragma para se enrobustecer  antes de novo choque. Sente a humidade passar pelas pestanas, e já não sabe dizer se provêm da testa ou doutras pestanas mesmo defronte. E então ela afasta-se de forma que ele lhe veja o rosto e traça o sorriso, que se alteia impertinente, uma contracurva trémula que lhe pede clemência. As mãos magras seguram a cara dela, prendem-na para poder gravar um retrato eterno, um retrato a que pudesse regressar quando a dor voltasse. As lágrimas secaram mas um golpe seco contra peito recorda-lhe a linha que se mantêm queda à espera de ser trespassada. No exacto momento em que ela atravessar a linha, ele sabe-o, da porta sem fundo verá acercarem-se hordas de cancros, aneurismas, pestes, epidemias, cataclismos, terramotos, ondas gigantes, pragas, acidentes, estropiados, a danação, mares revoltos de sofrimento, a velha inclemente e fiel, por fim. Ela sussurra-lhe “Adeus”. Quere-o. Ele já deixou de querer. Já só espera abandonado o terror por detrás da linha de embarque.

Março 20, 2011 - Publicado por | Uncategorized

2 Comentários »

  1. enquanto aqui estiver posso dizer-te isto. gosto da forma como encontras a tua ficção na rotina de todos os dias. gosto das palavras que escolhes.

    Comentário por adriana | Março 20, 2011

  2. Lindo… Adorei, conseguiste passar a emoção do momento. :)

    Comentário por anita | Março 21, 2011


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