Termidor
Roberto Temudo não se lembra de quando preencheu o primeiro formulário, tampouco se lembra da última frase que o pai lhe disse, antes de fugir com um torneiro mecânico e com o exemplar de um livro latino-americano. Lembra-se, e lembra-se moderadamente bem, do último sorriso da mãe, que coincidiu, moderadamente bem, com a catarse proletária e maricas do pai. Neste momento tenta lembrar-se das mudanças que se produziram nos formulários: terão sido poucas com excepção da unidade monetária. Uma vintena de anos a querer-se saber exactamente a mesma coisa da mesmíssima pessoa. Roberto Temudo não seguiu as pisadas do pai, literal ou metaforicamente. Nunca mais o viu e vive com uma mulher que conheceu através do formulário, prova acabada de que nada mudou em vinte anos de formulários, fora a situação conjugal. Nada pelo ano da graça de 1977, longe do seu longínquo ano de sessenta e dois, enxaguada na pia baptismal com o nome de Maria Agripina. Mulher feita e feia quando a conheceu, caduca e feia por agora, informação negligenciada pelo formulário, mãe das suas duas filhas, filhas normais mas embrutecidas, porquanto dentro da média, desconfia até que uma delas tem um pequeno atraso apesar de nunca ter tido coragem de o confessar a Maria Agripina, pois suspeita que ela não seria capaz de reconhecer a sua responsabilidade genética e ele ver-se-ia forçado a demonstrar cientificamente a suave imbecilidade que perpassa o rosto da mulher a todo o instante, e isso certamente abalaria a união quase pátria que os mantém juntos há tantos anos. Roberto Temudo lembra-se do dia em que a conheceu, ou melhor, lembra-se do formulário dela, a imagem dela há quinze anos atrás chega-lhe à memória como um rejuvenescimento feito a computador, preservando acima de tudo a fealdade, comprometido com a verdade mas ainda assim não mais do que uma aproximação. Lembra-se sim da primeira vez em que fizeram amor mas porque nesse caso dispensa-se a obrigação de reajustamento cronológico, a primeira vez foi anódina e às escuras, como às escuras e anódina foi a concepção das duas filhas, e igualmente foi anodinamente e às escuras que no mês anterior se ajeitou por detrás dela e fez o que tinha a fazer. De resto, não estaríamos muito longe da verdade se disséssemos que o seu historial sexual segue compassado com a sua vida anódina e às escuras. Trinta anos a preencher formulários sem ver caras, muito menos corações, o despertador a tinir às oito menos um quarto, os prolegómenos normais do dia-a-dia, formulários, diária a quatro euros, formulários, regresso a casa e as noites encafuado no escritório. Suporta a relação com a mulher e os gritos das duas miúdas à volta da casa da mesma forma que preenche o formulário e com o mesmo entusiasmo com que ejacula para dentro de Maria Agripina. Decorrem estas obrigações da sua fidelidade à vida. Nunca a pretendeu transcender, limita-se a tratá-la da melhor forma que sabe, com a regularidade e simplicidade que restam a um homem honesto e aprumado. Sabe que as transcendências e sublimações da vida só podem arrastar consigo o inferno e tem na sua entrevada mãe a prova provada disso mesmo.
Roberto Temudo pensa nestas coisas, à noite, sentado militarmente diante da secretária. Todos os dias, a partir das sete da tarde fecha-se no seu escritório e renega as suas responsabilidades maritais e paternais. E é então que lhe surgem aqueles demónios conspícuos que ameaçam a solidez da sua existência terrena, de repente, transidos como loucos, dançam e devastam a mansidão da sua consciência, vêm sob a pele de furiosas bestas a augar por sangue ou na imagem de complexos industriais de trucidação colectiva, munidos de rodas dentadas com lâminas nas pontas. Ele sua e agita-se, sem sair da cadeira, e uma força percute-lhe cansaço por todas as arestas do corpo, emdemoninhado pelos espectros. Os espectros relembram Roberto Temudo do seu desígnio último e secreto: escrever o maior romance latino-americano do século. Resmas e resmas de folhas rabiscadas acumulam-se em cima da secretária, ainda que nem uma faça parte da obra, são apenas vivificações de notícias recolhidas de diários sul-americanos. Roberto Temudo nunca foi às putas nem bebeu Mezcal, Roberto Temudo apenas fodeu institucionalmente a sua mulher, nunca conheceu os deserdados do mundo, a não ser por formulário, Roberto Temudo nunca viu cavalos a erguerem-se no ar nem lianas a falar, Roberto Temudo tem duas filhas, metade delas inimputável e nunca saiu de Portugal. Roberto Temudo não se lembra da última frase que o pai lhe disse mas, ocasionalmente, avista gélido e fixo na memória o olhar libidinoso do operário que andou a enrabar o pai pelo mundo fora.
Roberto Temudo tem a cabeça vazia e cheia de ideias que lhe ferem os olhos, e os ouvidos, e a garganta, e o escroto, e sente também o esfíncter dorido de tanto aperto não-proletário. Roberto Temudo escreveu mais de mil vezes “ E veio o dia em que Augusto Rodríguez regurgitou Puerto Montt”. A Roberto Temudo não é o quotidiano que o mata. Porá um fim ao seu termidor regular e anodinamente engasgado com o formicida das letras.
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