serve-se morto

Je sais que j’aurai peur une dernière fois.

Termidor – Tomo II

Quotidianamente, pelas oito da manhã, Roberto Temudo abre a caixa do correio e verifica a correspondência. Em abono da verdade, não é o conteúdo das cartas, poucas, que recebe que o impelem mas sim a ânsia de se certificar de que nenhuma delas é endossada para o indivíduo de ascendência inteira que lhe percorre as veias. Tem de seu nome completo Roberto Luís Temudo Pardal Santos Silva mas no momento da assinatura e para qualquer acto de identificação recorre unicamente, e antes mesmo de ter tempo para pensar, à onomástica matrilinear (e daqui se exclui o Luís, da autoria do pai). Fá-lo desde há anos, desde a maioridade, e a prática calcificou-se. Porém, há instituições e organismos que no seu zelo identitário lhe recordam a impossibilidade da gestação solitária, a perenidade genética e todas essas coisas de que Roberto Temudo gostaria de se descartar. Gosta de pensar que assim se sente mais próximo da metade sul do continente de Vespúcio, de certa forma adocica-lhe os meandros da consciência, fá-lo olvidar (e de como ele gosta de recorrer ao olvido, ao seu significado e significante, musical, tão mais latino-americano) das tardias epifanias paternas. Como dizíamos, em toda e cada uma das manhãs, antes ainda de tomar o pequeno-almoço e de lavar os dentes, Roberto Temudo levanta-se da cama e veste o roupão para se assegurar de que o lastro do pai é administrativamente extirpado do seu nome. Não é este o único motivo que o achaca. “Roberto Temudo” soa bem a Roberto Temudo, abre-se primeiro para logo depois se fechar, sobe e desce, a simetria compensa a assimetria familiar, como se obliterar a parte paternal parisse uma nova simetria una. E há, ademais, um motivo de natureza prática. Das poucas vezes em que, por obrigação alheia, se viu forçado a escrever “Roberto Luís Temudo Pardal Santos Silva”, logo começou a ressumar, ourado, com as mãos a fugirem-lhe do corpo, duplicando-se, decuplicando-se, os pensamentos a encavalitarem-se uns nos outros até por fim cair redondo no chão. Sintoma recidivo que o fez consultar um médico. Este, de quem desconfiou por usar uma fita da Nossa Senhora do Bonfim e por quem desenvolveu uma estranha empatia de reminiscência sul-americana, ouviu incrédulo a história, como se um nome pudesse ter menos potencial místico que um pedacinho de pano atirado ao mar. No fim, arrumou com o assunto em duas penadas e receitou um anti-psicótico que Roberto Temudo nunca chegou a tomar. Nos seus tortuosos fins de tarde, Roberto Temudo continua a ouvir uma voz que lhe diz para procurar a cura no nome, no seu nome, completo e inteiro, pai, mãe e espírito insano.

Roberto Temudo sonha como poucos e também os seus sonhos apontam para sul. Vive no constante tormento de a imaginação se esgotar enquanto dorme. Acorda e apenas o seu nome ressoa por entre o vazio que é a imaginação diurna, furioso pela inépcia em amortizar os proventos da nocturna fúria criativa. As cartas seguem-se a noites de terror sonhadoras em que todos os membros de Roberto Temudo são fustigados pelas cãibras. Os sonhos apenas completam e dão seguimento aos fins de tarde encrespados. Desde há muitos anos um sonho se repete. Nele vê um enorme enguiço com rodas dentadas, calafetagens, rebites, cordas e panos montado dentro de uma casa antiga com escadas em caracol. Ele aguarda sereno lá dentro e vê a sua mãe assomar à entrada. Esconde-se e nada lhe diz. Ela prossegue até que ele acciona um mecanismo que deixa cair um manto transparente (ou Roberto Temudo assim o acha, na medida em que vê a mãe mesmo depois do manto cair) sobre a sua pobre mãe. Esta debate-se com o manto que a sufoca. Roberto Temudo ri-se, e ri-se até se engasgar com o próprio riso, da sorte da velha. O riso pára quando percebe que mesmo sem ar a mãe continua a falar. Aproxima-se dela e retrai-se estarrecido. A mãe não pede socorro, não clama por desculpa. E é então que a maldita e encoberta culpa o invade e lhe tira o ar. Enquanto os dois asfixiam, olha para o rosto da mãe onde não há raiva, nem ressentimento, nem culpa. Ela debate-se leniente com o dióxido de carbono para lhe poder soletrar intermitentemente o nome: Roberto Luís Temudo Pardal Santos Silva cortado às postas. A voz aparece então, desta feita sem saber se no sonho se já acordado, e grita-lhe para procurar no nome. Depois, Roberto Temudo acorda e vomita, antes de ir inspeccionar o correio.

Abril 11, 2011 - Publicado por | Uncategorized

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