Mundos maravilhosos
“Mundos maravilhosos”, assim rezava, certa noite, uma pequena inscrição na haste do berço da filha menos desenvolta de Temudo. Chorava copiosamente, atordoada pelas cólicas, um choro que se engolfava em inspirações frenéticas. A mulher dormia o sono dos justos, carburado a barbitúricos, de forma que Roberto Temudo sobrava como único molestável da casa. Quando se acercou do berço trazia na mão um pano enxaguado, crente de que eram mais uma vez as febres quem provocava o brado irado da filha. Era só mais um erro de avaliação a somar a tantos outros, obra de uma cabeça pertinaz, a mesma cabeça que julgou ver no retardamento da filha uma décalage normal dentro escala da evolução pueril. Passou-o distraído pela testa pouco ágil da filha, na esperança de que o choro abrandasse e o deixasse finalmente dormir. E então leu a inscrição, releu-a, voltou a lê-la e o choro foi se sumindo lá longe, até desaparecer. “Mundos maravilhosos”, duas palavras estranhas, nunca acopláveis, derrogavam o pendor natural das pálpebras. Temudo não pensava muito em mundos maravilhosos, limitava-se ao seu próprio mundo fértil em episódios pouco magnificentes, aborrecidos. O mundo maravilhoso de Roberto Temudo encontrava-se distante. Era um mundo apartado da civilização, no interior, um mundo infantil onde se refugiava de quando em quando. Mas, e Temudo por vezes outorgava-se a si mesmo o título de beneficente da sorte quando medido o seu mundo com a régua das gentes comuns, era um mundo existente. Num tempo diferente, é certo, mas vivido, real. A este acesso de optimismo contrapunha interiormente que todos os mundos maravilhosos existiriam sempre, para trás ou para a frente, nunca no tempo presente, e que o seu mundo só diferia do de metade da humanidade que projectava os seus mundos no futuro. Sobrava a outra metade que fazia de Temudo um ser tão excepcional quanto o podem ser todos os seres que se ajeitam no leito de uma das metades da humanidade. Perguntava-se se não haveria ainda uma porção sonhadora de bípedes que augassem por um mundo fora do tempo ou que simplesmente fossem incapazes de conceber mundos maravilhosos, e logo lhe adocicava os lábios o sabor do privilégio.
O mundo maravilhoso de Roberto Temudo ficava lá atrás, enfim, ele próprio o admitia, um mundo nostálgico, tão irreal como os mundos nunca sonhados ou fora do tempo. Ficava no interior agastado do país, numa casa dividida a meio por um alpendre cimentado. Um mundo guindado à beleza mais primacial durante a noite, perdido entre montes que ao fim da tarde se começavam a debruar de púrpura e laranja. A filha no berço esperneia, tem agora os beicinhos roxos, a cara roxa, e chora mas Temudo já se perdeu. O seu mundo sonhado ou lembrado, como lhe mais aprouver, está cheio de movimento, e recorda-se que aquela casa é a casa dos avós onde junto ao escano lhe juraram que o tinham salvado de ver a língua ser comida por um rato. Em frente ao alpendre vê o pelourinho onde se empoleirou com uma caçadeira de chumbos para depois lhe jurarem que abatera a cauda de um rafeiro, o seu primeiro recontro com a culpa. Nesse fim de mundo, lembra-se de passear de noite, desafiando o medo, vendo o seu pequeno corpo de miúdo a desaparecer, primeiro a mão, depois os braços, o corpo inteiro até o próximo passo se tornar no mais absoluto gesto irracional, recorda o zunir agudo dos grilos a aumentar na razão inversa da claridade, um zunido ácido a chegar das trevas, a insidiar o medo pelo corpo menino. É esse o seu mundo maravilhoso. O pensamento vai sendo entrecortado pela respiração ofegante da menina para por fim ser resgatado da letargia. Vê então a cabecinha azulada da filha surgir mais claramente. Dividido entre a emergência e a nostalgia, acorda por fim Agripina para levarem a filha em sofrimento às urgências. Lá, uma equipa de médicos e enfermeiras retira um pequeno pedaço de madeira alojado na traqueia da inepta. Ao voltar a casa, Temudo procura a placa com a inscrição. Em vão. Roberto Temudo está seguro de que a filha engoliu o seu mundo maravilhoso.
A tristeza apodera-se dele. O mundo maravilhoso é um mundo rouco com cheiro a morto. Já não se lembra dos familiares que estão vivos e dos que morreram, confundem-se, e dá por si a falar de almas penadas como se de vivos se tratasse. A rouquidão é uma rouquidão arrastada, congénita, não é fruto de desespero nem de desgaste. É assim, nasceu assim, já tolhida. Mas o fedor a morto é pestilento e pressente-o em todos os regressos, é o cheiro a folar e estrume, a Cristo e à lameira, um odor que se espalha por todos os ermos da aldeia. O silêncio engole a aldeia enquanto Temudo se move proceloso para resgatar à morte o seu mundo sonhado. Os avós estão mortos, os tios estão mortos, já não conhece ninguém. Mas os vivos estão eles mesmos mortos, toda a aldeia está morta. Como morta poderia estar a filha se ele tivesse continuado a pensar no seu mundo morto. Temudo sabe que é aquele um mundo sem regresso, dali só se parte, para a cova ou para Marselha, ninguém regressa. Só os mortos permanecem e sorriem escarninhos da sua esperança vã e do seu maravilhoso mundo morto. Roberto Temudo sabe que o regresso é morte, morte da memória e que o seu mundo maravilhoso morreu no passado, ainda que dentro do tempo, dum tempo morto.
2 Comentários »
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Começo a afeiçoar-me a este Temudo.
Comentário por eternal sunshine | Abril 28, 2011
É não afeiçoar muito que o epitáfio deve estar mais perto que longe.
Comentário por jpm | Abril 28, 2011