Fim
“ Do nada erguer-se-á a luz, um dia. Um dia solvente e prenhe de tépida calmaria. Até lá, lamento deixar-te as trevas, este mundo átono e insolvente.
Talvez seja isto a que chamam de parricídio. Tecnicamente estimo que seja uma imprecisão pois seria impreciso excluir-te do rol de responsáveis, mas as nossas filhas acima de tudo falharam no acto derradeiro de se erguerem receptáculo de uma transferência emocional qualquer que me permitisse viver. Por isso, deves deixar bem explícito no teu depoimento que crês ter sido um parricídio. É o último favor que me fazes. Já que não fui eu capaz de o cometer, que seja então cometido contra mim.
Dentro de minutos, ou há uns minutos, dependendo do tempo escolhido, o meu ou o teu, lançar-me-ei da varanda. Venho pensando nisto há algum tempo e afligia-me, e ainda aflige, o possível arrependimento naqueles breves milésimos de segundo que separam o salto no vazio do esfacelamento na calçada. É, no entanto, uma boa forma de me entreter até lá. E sempre experimento uma sensação nova durante os últimos segundos de vida. Falta-me ainda saber se serei capaz de os contemplar depois do embate. Como vês, nem numa morte premeditada e estudada encontro refúgio para as dúvidas. Assim seja, e morrerei com elas.
P.S. Por favor, não te esqueças, como previamente acordámos, de providenciar um fogo fortuito (e, vá lá, fátuo) por entre os meus papéis e recusa terminantemente qualquer edição póstuma de material inédito. Ainda que não estipulado, deixo-te, integral e exclusivamente, a culpa.
9 de Maio de 2011
R.T.”
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