ressurreição
Temudo morreu com pavor de alturas. Do alto do prédio por mais do que uma vez se tinha entalado entre pensamentos cruzados, persistentes, a percutirem-lhe os bombos da paranóia. Saltar, porque não? Apenas mais um passo, um pézinho no algeroz ferrugento, deixar que o destino se apoderasse dos imponderáveis contidos na orientação do vento ou na resistência dos materiais. Uma torrente de indecisões intermináveis a dançarem-lhe testa adentro. E era nesses momentos que o desejo o atormentava com mais força, os músculos das pernas se contraíam involuntariamente como se se ajeitassem para o salto que havia de vir, um estado febril o atormentava com o coração a trote, o cigarro aguçado como um lápis a lacerar-lhe as peles dos lábios. Depois corria para dentro de casa, trancava a porta da varanda e esperava que o dessasosego se diluísse.
Da última e majestática vez, nada disso o acossou. O passo enérgico conduziu-o da varanda ao chão, num salto firme e resoluto, como se de um mergulho olímpico se tratasse, executado na perfeição, rojado o seu nome em direcção à lápide.
Hoje, o corpo desfigurado e anguloso de Temudo repousa dentro de um caixão paupérrimo, como o defunto ordenou, ladeado por círios ardentes e liláses. Apenas os mais próximos apareceram. As duas filhas correm no pátio, e furtivas esgueiram-se até ao féretro para levantar as pálpebras do pai, no meio daquele bolo de carne e sebo que outrora tinha sido um rosto, não menos carnal e seboso. Agripina executa o luto pelo canal gástrico, atacado por gorgolejos ácidos. Outros conhecidos de Temudo, que a amizade vendeu-a demasiado cara ao longo da vida, conversam animadamente do lado de fora da capela, relembrando a morte prevista de Temudo e a confrontam com a morte real e esforçada de Roberto. A morte onírica do tubo exaustor enfiado na goela que nunca se chegou a cumprir. A morte viscosa do emputrecimento orgânico que nunca veio.
O cura aproxima-se do púlpito – exigência última não escrita de Temudo, subproduto da inapelável contradição entre a culpa cristã e a descrença na vida ulterior, diminuição absoluta dessa entidade imperscrutável que ajunta todos os ateus cristãos, o pior de dois mundos, como Temudo lhes chamava - e bolça as litanias. Agripina enraivece-se ao ver o cortejo de beatas a tirar os dividendos à morte, com cestinhos de vime mas em cinco segundos esquece-se da raiva e cospe para dentro, enjoada pelas recentes irupções caóticas na vida de formulário. As miúdas riem-se, a atrasada com mais força, não se sabe muito bem de quê, mas Temudo no caso de ainda ser vivo, asseguraria que de si mesmo, mais estropiado por dentro do que por fora. O padre delicia-se com o prolongamento do sofrimento perpetrado pela leitura do nome completo do defunto, como ali estivesse o epónimo de uma nova idade do terror e da vileza. Os veios do nariz expandem-se, os olhos injectam-se de bílis e as mãos iracundas tremem-se-lhe enquanto reverbera. Mas quando começa a dizer o nome, algo se apossa dele, e o nome não sai, e as letras dançam e voam por cima da cabeça do auditório fúnebre, descendo em voo picado e rasgando carnes com as arestas. Agripina defende-se, mas um erre traça-lhe um lenho no nariz, depois segue-se um “i” que rasa os fígados da pequena diminuída. E é então que o nome todo se dispersa no alto. Temudo ri-se e goza a alegria post-mortem, no caso de estar vivo.
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Comentário por fallorca | Novembro 11, 2011
Obrigado
. Mas está moribundo.
Comentário por jpm | Novembro 12, 2011